XXII Encontro da Regional RS do ANDES-SN aborda Autonomia e Intervenções nas IFES 

 

Mesa que ocorreu no último sábado, dia 7 de agosto, discutiu também a reforma administrativa 

 

O que seria o autoritarismo dentro das universidades? Isso existe? Voltamos no tempo? Infelizmente a resposta é que não só existe, como está presente em várias IFES ao longo do nosso país. Pensando nisso, a Regional RS do ANDES-SN preparou uma mesa para tratar das experiências de professores e professoras que estão vivenciando isso na pele, em pleno ano de 2021. 

Precisamente às 9h, o integrante da diretoria da Regional RS do ANDES-SN, Cesar Beras deu as boas-vindas aos presentes no encontro online, e apresentou os(as) participantes da mesa. A mediação ficou a cargo do professor e ex-presidente do ANDES-SN, Luiz Henrique Schuch (Adufpel). Os(As) debatedores(as) ficaram divididos em duas universidades fora do estado e duas universidades gaúchas. A professora Rúbia Vogt da (ANDES/UFRGS) e a professora Celeste Pereira (ADFPel) representaram o Estado do Rio Grande do Sul na conversa. Já a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) foi representada pela professora Claudia Marques Roma, e por fim, o professor Bruno Matias da Rocha, representou as Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC).

“Uma temática propícia para este momento de dificuldade. Essa pauta tem um potencial de diálogo com as categorias, especialmente nas universidades que tiveram ruptura com a democracia. Além disso, este é um assunto que chama, dialoga e nos aproxima”, destacou Schuch, mediador da conversa.

Começando com as angústias e experiências, a primeira a relatar a vivência foi a professora de geografia do Mato Grosso do Sul (MS), Claudia Roma. A docente destacou que o estado é um dos polos do agronegócio no Brasil, o que sempre foi um território de conflitos entre os indígenas e o agronegócio. “Em 2019, quando começa o processo de intervenções nas universidades federais, a UFGD foi uma das primeiras a sofrer esse ataque”, disse.

Na UFGD existe um processo de consulta prévia, com o voto paritário entre os docentes, técnicos e discentes. Um dos professores que disputou era ligado às questões bolsonaristas, mas não foi o vencedor. “O candidato foi derrotado e tiramos em assembleia uma carta política e de compromisso com os candidatos, que se eles não fossem os ganhadores, não se colocariam na lista”, ponderou a professora.

Em Mato Grosso do Sul, uma professora que nem tinha participado do processo eleitoral da UFGD foi nomeada pelo Ministério da Educação (MEC). “O que este fato gerou foi uma falta total da nossa autonomia universitária, e os processos que acabaram acontecendo dentro da universidade são perversos, assim como o próprio ato de intervenção”, explicou Claudia. 



CONSEQUÊNCIAS DA INTERVENÇÃO NA UFGD

Após a intervenção em 2019, os conflitos começaram de forma sistemática. “Em uma reunião do Conselho Universitário, até a polícia circulou dentro do campus. Os embates dos movimentos estudantil, dos técnicos e docentes com a gestão, entre outros episódios passaram a ser recorrentes dentro da universidade”, explicou a professora. 

Além disso, existiu uma fraude nas cotas do curso de medicina, onde 10 alunos(as) se passaram por pretos e pardos. “A Universidade estava em um processo contra esses(as) alunos(as), mas quando a interventora assumiu a reitoria, o ministério público procurou a gestão da universidade e ela aceitou o acordo com estes(as) alunos(as)”, disse. O sindicato dos(as) professores(as) da UFGD (ADUFDourados) está atento a estes episódios e segue com duas linhas de luta, a política e a jurídica.



CEARÁ

O segundo a falar foi o representante das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), Bruno Rocha. “O nosso caso é um pouco diferente, pois o candidato estava na lista tríplice, mas foi o menos votado”, comentou Rocha. O professor também explicou que a indicação é uma deslegitimação da representação dentro da gestão da Universidade Federal do Ceará (UFC). “O nosso conselho ficou esvaziado, as decisões acabam sendo o que a reitoria quer e ponto final. O papel do sindicato é lembrar para a comunidade universitária quem são os interventores, lembrando que não é só reitor, mas os diretores aliados e inúmeras outras pessoas”.

Também em 2019, a intervenção começou de forma velada da UFC. Os eventos que falavam sobre democracia e tolerância foram sendo cancelados. A operação administrativa, que lida com as pós-graduações, calendários e as férias docentes foram ocupadas por pessoas sem capacidade técnica. “ A intervenção simplesmente bagunçou tudo isso, o que não é surpresa dado a incompetência que é característica do governo Bolsonaro. Se não fosse a intervenção, com certeza as pessoas adequadas seriam colocadas para gerir a universidade”, disse. Os ataques aos discentes, técnicos e professores também são unanimidade entre os interventores, que transformam a reitoria em instrumento de perseguição a quem faz oposição.

O professor alerta também sobre a reforma administrativa, que traz uma proposta que ataca a colegialidade, principalmente a ausência dos concursos públicos. Outro ponto destacado pelo professor é a representatividade. “A reforma administrativa é um perigo, porque abre uma brecha para que pessoas que não representam a autonomia universitária ocupem cargos de diretores e pró-reitores, representando outros interesses. Nós sabemos que dos órgãos colegiados saem decisões e resoluções que alteram a forma de trabalhar para sempre, e isso nos preocupa muito”, refletiu Rocha.

 

PELOTAS

A ex-presidenta da ADUFPel, Celeste Pereira dividiu a fala em três momentos. Fatos históricos, último processo de escolha da reitoria e os resultados e lições do processo de intervenção. 

Em 6 de janeiro deste ano, o MEC decretou a nomeação da professora Isabela Fernandes Andrade, segundo lugar na lista tríplice, como reitora da UFPel, ignorando a escolha de docentes, técnico-administrativos e estudantes. 

Isabela fez parte da chapa vencedora do processo de consulta informal, “UFPel Diversa”, juntamente ao candidato a reitor, Paulo Roberto Ferreira Júnior. Ambos os nomes integraram a lista tríplice, referendada pelo Conselho Universitário (Consun) da UFPel no dia 19 de outubro. Em primeiro lugar ficou Paulo, que recebeu 56 votos dos conselheiros, seguido de Isabela, que obteve 6 votos, e de Eraldo, com 2 votos. 

“Eu participei da comissão eleitoral e nós conseguimos fazer um acordo entre os concorrentes, que no momento da homologação do conselho universitário, apenas os nomes da chapa eleita seriam indicados, e da mesma maneira, o acordo para os conselheiros que fosse referendada a escolha feita pela comunidade universitária”, comentou Celeste. Aconteceu que o Bolsonaro não escolheu o primeiro da lista tríplice e após dois dias da nomeação, a chapa acatou a decisão antidemocrática do governo federal, de nomeação de Isabela como reitora da instituição. 

 

RESULTADO DO PROCESSO DE INTERVENÇÃO

 

“Olhar para o lado e ver companheiros e companheiras de luta, que hoje estão lá defendendo o projeto intervencionista é uma situação muito ruim, além de ser muito duro viver esta experiência”, lembrou Celeste. Ainda, segundo ela, a disputa de ideias e posições divergentes é saudável, mas os(as) colegas em que confiamos ao longo da militância política de toda uma vida, hoje se encontrarem em um campo de cerceamento dos nossos direitos é desolador. “A gestão é passageira, mas o resultado dela pode ter implicações para a vida de todos nós”.

A nova gestão da UFPel é caracterizada por uma fala contraditória no sentido de fazer a defesa da democracia, o que não se traduz na prática. “Estamos vivendo um processo duro de ataques aos direitos dos trabalhadores, docentes e técnicos-administrativos, inclusive com medidas sendo impostas de forma aligeiradas, colocados em um dia e no outro passam por aprovação, sem o debate com os interessados”.

Celeste lembrou também sobre o parecer normativo 49, que impõe a obrigatoriedade da gravação das aulas, sem nenhum amparo legal. “A nossa universidade está sendo pioneira em obrigar os colegas a gravar as aulas, e sabemos que aulas gravadas podem significar inúmeras coisas, inclusive a utilização delas com o professor ausente da universidade, como forma de baratear os custos. Esse desgoverno é capaz de qualquer coisa, não sabemos o que pode acontecer”.

A professora encerrou a participação dela na mesa com uma reflexão. “É preciso encontrar os nossos espaços de resistência nesse processo, mas tenhamos no nosso horizonte que resistir não é o suficiente.  Precisamos sair do espaço da resistência e ir para o campo da ousadia”, concluiu.

 

UFRGS

 

A última debatedora, representando a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rúbia Vogt fez um relato sobre o que vivencia como docente na capital gaúcha. “A intervenção vem minar o funcionamento mais democrático da universidade", foi assim que a professora começou a sua fala. No caso da UFRGS, o terceiro e último colocado na consulta universitária foi o indicado para reitor. Mas isso já havia acontecido no ano de 1987.

Outro problema da UFRGS é a não paridade, sustentada com afinco dentro da universidade. “Dentro dos nossos históricos, não bastasse a não paridade, pelo menos nas duas últimas eleições nós temos resultados diferentes, onde os candidatos mais votados em números absolutos de votos não são os candidatos nomeados, nem os que ficam em primeiro lugar, pois a votação do conselho não respeita a paridade. Isso precisa ser sempre rememorado, o quanto a não paridade enfraqueceu o nosso movimento de luta”, relatou Rúbia.

Dentro desse cenário, um grupo de interventores viu uma oportunidade diante do quadro do governo Bolsonaro e sustentaram a candidatura. “Um deputado federal se colocou através dos meios de comunicação e mediou a relação do grupo/chapa com o presidente Bolsonaro, durante todo o processo de escolha do reitor”, relembrou a professora. 

Um outro aspecto que é a UFRGS por ser uma universidade antiga, ser grande e estar na capital gaúcha tem toda uma questão de orgulho. “O problema é que às vezes o orgulho se transforma em arrogância, um sentimento de superioridade, e que as coisas que não irão nos atingir. Isso acabou sendo um banho de água fria para quem pensava desta maneira”, relatou.

 

GESTÃO INTERVENCIONISTA 

 

O professor Carlos Bulhões, foi nomeado, assumiu e de imediato executou uma mudança administrativa na UFRGS, sem escuta, sem discussão, sem passar pelos órgãos e pelo conselho universitário. A fusão da pró-reitoria de graduação e pós-graduação, são áreas grandes e de políticas educacionais diferentes. “Esta fusão não passou por discussão. Além disso, as reuniões de conselhos não eram mais chamadas e outras reuniões eram derrubadas de forma unilateral”, complementou Rúbia, só para lembrar alguns exemplos do que vem ocorrendo dentro da UFRGS.

O conselho da universidade criou uma comissão para avaliar essas mudanças e o resultado foi votado em março de 2021. A decisão elencou que a reitoria deveria voltar à estrutura administrativa anterior, principalmente por não ter cumprido os ritos. O prazo era de 30 dias. “O que o reitor fez? Ele esperou os 30 dias e depois apresentou um parecer da procuradoria que sustentava as suas mudanças”, explicou a professora.

Depois disso foi criada uma nova comissão para avaliar a desobediência do reitor a uma decisão do conselho universitário, e no último dia 31 de julho o parecer foi votado e aprovado. “Uma das recomendações do parecer é a destituição do reitor, que será encaminhada para o Ministério da Educação, além de denúncia para o Ministério Público dos atos realizados pelo interventor”, explicou a docente da UFRGS.

Após quase duas horas de relatos dos(as) quatro docentes, de universidades e cidades diferentes, os professores e as professoras que escutaram atentamente o debate puderam fazer suas reflexões sobre o assunto. As preocupações, os anseios e as aflições tomaram conta da parte final da mesa. "O quão bela foi a mesa no sentido de entender, e o quão assustadora ela também foi. Em pleno século 21, estamos vivendo um autoritarismo dentro da universidade", finalizou o integrante da Regional RS do ANDES-SN, Cesar Beras.









 

Por reduzir custos do trabalho, onerando docentes e estudantes, ensino remoto ou híbrido encanta iniciativa privada

 

A precarização do ensino remoto em tempos de pandemia e de Reforma Administrativa foi o tema da segunda mesa do XXII Encontro da Regional do ANDES-SN. 

Ocorrido na noite da última sexta-feira, 6, o debate trouxe a contribuição das professoras Vera Jacob (ADUFPA), Suzane Gonçalves (APROFURG) e Amanda Moreira (UERJ), que comentaram sobre os principais impactos da adoção açodada de um modelo remoto nas universidades brasileiras: intensificação das rotinas de trabalho docente; carestia nos custos de vida – pois professores passaram a arcar com equipamentos, pacotes de internet e demais adaptações necessárias para transformarem suas casas em espaços de trabalho –; adoecimento físico e mental em decorrência da sobrecarga, da infecção por Covid-19 ou da perda de pessoas queridas; exclusão de milhares de estudantes que, não tendo computador, um bom pacote de dados ou mesmo um cômodo em suas casas no qual pudessem estudar com qualidade, foram penalizados em seus processos formativos; e avanço de empresas privadas de tecnologia na área da educação. O evento ocorreu de forma online e teve a participação de uma intérprete de libras. 

Dados expressivos 

A pesquisa realizada pela Associação de Docentes da UERJ (Asduerj) junto aos docentes de sua base ainda no ano de 2020 traz alguns dados interessantes para se pensar os impactos do trabalho remoto na categoria docente também de outras universidades. Quando questionados sobre o número médio de horas que trabalham por dia, a maioria (44,7%) dos docentes respondeu que trabalha de 9 a 12 horas – o que, na equação semanal, ultrapassa o máximo de 40 horas previstas. O trabalho aos finais de semana também é realidade para a maioria dos professores daquela instituição, já que 36,9% responderam que frequentemente desempenham atividades laborais neste período, e 33,5% sinalizaram que sempre as realizam. De uma forma geral, 71,6% dos 553 docentes que responderam à pesquisa afirmaram que houve aumento de suas cargas de trabalho durante a pandemia. 

A produção acadêmica também foi um elemento avaliado na pesquisa da Asduerj, a que 73% dos docentes responderam que, durante o ano de 2020, sentiram mudanças em seus padrões de produção acadêmica: 50% dos respondentes afirmaram terem produzido menos, e 26% atestaram maior produção neste período. Para Amanda Moreira, dirigente da Asduerj e docente do Instituto de Aplicação da UERJ, é preciso problematizar as questões de gênero que perpassam tais indicadores. Embora a pesquisa não faça esse recorte, a docente lembra estudos divulgados pela organização Parent in Science e que mostram a queda na produtividade de mulheres durante a pandemia – muito em decorrência de ainda serem as principais responsáveis pelo cuidado com a casa, com os filhos ou com familiares. 

Outro elemento abordado na pesquisa foi a responsabilização dos docentes por adquirirem equipamentos ou pacotes de dados melhores para dar conta das aulas e demais atividades que agora passaram exclusivamente ao âmbito virtual. A ampla maioria (84,5%) dos respondentes tiveram de fazer adaptação nas condições de suas casas para desenvolver as atividades de trabalho. Desta porcentagem, 53% compraram equipamentos ou mobiliários; 52% aumentaram ou adquiriram um novo contrato de internet; 59% adaptaram os cômodos da residência; 77% ajustaram a rotina da casa e 72% compartilharam equipamentos com outros membros da família. 

“Hoje temos um aprofundamento dos ataques à universidade pública. O ensino remoto vem para fortalecer a privatização, aumentando e incentivando a adesão a plataformas privadas de ensino online, precarizando a formação e o trabalho docente, e oferecendo uma educação cada vez mais minimalista. Estamos vivendo a lógica da uniformização, uberização e segregação do trabalho por meio remoto, o que de fato prejudica muito a organização coletiva”, pondera Amanda. 

Arremedo de ensino

Vera Jacob, docente da Adufpa e ex-vice-presidente do ANDES-SN, critica o processo que levou à adesão do ensino remoto nas universidades e escolas brasileiras durante a pandemia. Para ela, o que se fez foi um arremedo de ensino, sem debate qualificado com as comunidades acadêmicas e à revelia da realidade de pobreza e assimetria social vivenciada pela maior parte da população brasileira. 

“Essa experiência foi um fracasso total. O modelo aprofunda a exclusão de pobres, negros, indígenas e crianças que vivem na periferia do país. A maioria dos estudantes, tanto das escolas quanto das universidades públicas, não conseguiu acompanhar as atividades síncronas, em especial por dificuldade de acesso à internet e computador. A maioria acompanhava com muita dificuldade por meio de celular, com uma internet que caía a todo momento (para aqueles que conseguiam pagar)”, avalia Vera. 

Ela também destaca as dificuldades impostas aos docentes neste processo, a exemplo da oneração individual da categoria, que teve de bancar, com seu próprio salário, planos de internet mais potentes, equipamentos e contas mais altas de energia elétrica. “Estamos vivendo um processo de estresse profundo entre os professores. É o que mais escutamos nas reuniões online. O professor passou a trabalhar em horário ininterrupto, tendo que responder chat, WhatsApp, etc. Aqui [na UFPA], colocaram 80 alunos numa sala. A maioria expressiva desses alunos não participou das aulas, e isso tem gerado uma série de conflitos”, comenta. 

Para a docente, todo esse processo de sucateamento, precarização e intensificação do trabalho observado em escolas e universidades aproxima-se e, de certo modo, é utilizado como justificativa para a aprovação de projetos nefastos como a Reforma Administrativa (PEC 32/20). Se hoje atestamos que o ensino remoto alija milhares de estudantes do acesso ao conhecimento, a Reforma, se aprovada, alijará muito mais pessoas, pois as privará de direitos sociais como saúde, educação e previdência. 

Com a Reforma, a própria carreira de docente federal entra na iminência da extinção, e as universidades, até então frentes de resistência aos desmandos, passarão a ser preenchidas com servidores terceirizados e temporários, absolutamente submissos às determinações de chefias e governantes. Os sindicatos, por sua vez, tendem a se esvaziar, assim como a autonomia didática, política e financeira das instituições de ensino.

A Reforma Administrativa, contudo, não é um capítulo separado, tendo sido antecedida de uma série de projetos responsáveis por estrangular o orçamento das universidades. Exemplo maior citado por Vera foi a aprovação da Emenda Constitucional 95, que aprofundou o corte nas políticas sociais. Quando esse contexto anterior de precarização encontra uma pandemia e a necessidade de transposição para o trabalho remoto, a alternativa que deveria ser temporária passa a fazer brilhar os olhos dos empresários da educação e de algumas reitorias país afora. 

Isso porque, se a pandemia demandou temporariamente a suspensão da presencialidade e a adoção da via remota, ela também mostrou que esse tipo de ensino precarizado e excludente faz baixar os custos com a educação no país, visto que docentes e estudantes são individualmente responsáveis por garantir suas próprias condições de trabalho e formação. Assim, a possibilidade de um ensino híbrido pós pandemia já tem sido sinalizada como a salvação da lavoura para a crise orçamentária vivenciada pelas universidades. 

“As escolas privadas que estão em ensino remoto reduziram até a mensalidade, já que as famílias entram com contrapartida de internet, equipamentos, luz, etc. Há uma redução dos gastos nesse modelo de ensino e esse é um elemento importante que tem atraído reitores para defendê-lo. Isso aumenta ainda mais o trabalho do professor, que tem que atender estudantes presenciais e estudantes via internet. Só nos resta a luta. Temos que fazer com que essas denúncias cheguem na população”, conclui Vera, ressaltando, também, a importância de resistir às pressões para um retorno presencial ainda inseguro nas instituições. 

Professor como tutor 

Um dos desdobramentos de uma possível adoção irrestrita do modelo de ensino híbrido é a fragilização cada vez maior da figura do professor. Suzane Gonçalves, docente do Instituto de Educação da FURG, explica que esse modelo tira dos professores sua capacidade de organização do trabalho pedagógico e desmonta sua carreira, trazendo, em seu lugar, a figura do tutor. Para ela, a adoção irrestrita do ensino híbrido era um objetivo do capital privado há muito tempo. Agora, com a pandemia, veio o aval que faltava para tal implementação, pois as universidades já teriam experimentado, obrigatoriamente, esse novo modelo. 

“[Nesse modelo] a figura do professor só aparece para fins de avaliação. Quem trabalha são os tutores. Existem estudos que mostram que muitos professores foram demitidos [em instituições que adotaram ensino híbrido], e há professores também que escondem sua qualificação, como mestrado e doutorado, para serem contratados como tutores, mantendo assim um vínculo de trabalho que garanta seu sustento”, comenta Suzane, para quem os professores de carreira tendem a se tornar cargos em extinção, caso esse modelo e o conjunto de reformas em curso sejam implementados. 

“Estamos vivenciando um processo que está articulado à Reforma Administrativa, que é o fim do trabalho público e de determinadas carreiras. Tivemos anteriormente a lei da terceirização, a reforma trabalhista, a reforma da previdência e a Emenda Constitucional 95. Todas essas legislações vão representando a flexibilização da jornada de trabalho, o aumento do trabalho intermitente, a ausência das garantias trabalhistas e de aposentadoria, e o agravamento da terceirização que, no setor público, tem aparecido inclusive para as atividades-fim”, relembra a docente. 

Ela ainda acrescenta, ao conjunto de leis e reformas já aprovadas ou em curso, a Instrução Normativa (IN) 65, apresentada pelo governo Bolsonaro em 2020, e que trata de autorizar o teletrabalho no serviço público. Referenciado em metas, prazos e produtividade, o teletrabalho reduz os custos para o Estado, onera os servidores através da responsabilidade individual por garantir os meios necessários ao desenvolvimento das atividades, e pode agravar processos de assédio moral e adoecimento psíquico. “Quanto mais instáveis são as condições de trabalho, mais medo as pessoas têm de se sindicalizarem”, reflete Suzane. 

A mobilização de cada um e de cada uma dentro das universidades é o caminho apontado pela docente para se contrapor a quem quer fazer da pandemia uma porteira permanentemente aberta às tentativas de vender e subalternizar o conhecimento público e as instituições nas quais ele é produzido. 

Programação

O XXII Encontro da Regional teve início no dia 23 de julho, com a mesa “Luta contra a Reforma Administrativa” e seguiu nos dias 6 e 7 de agosto. Em breve, publicaremos matéria com os principais encaminhamentos do encontro. 

A mesa da última sexta foi antecedida pela apresentação cultural do projeto “Kako Xavier e a Tamborada”, cujo objetivo é apresentar um pouco da música e da cultura negra do Rio Grande do Sul.

 

Texto e prints: Bruna Homrich



teste! 

 

 

Ficam os Docentes sindicalizados da Universidade Federal do Rio Grande - FURG e IFRS - Campus Rio Grande convocados para a Assembleia Geral a ser realizada no dia 12 de agosto, quinta-feira, na plataforma google meet online, às 10h30min, em primeira convocação, e, 11h, em segunda convocação, com qualquer quorum.

PAUTA:

- Informes;
- Deliberação da greve dos Servidores Públicos do dia 18/08;
- Assuntos Gerais.

O não comparecimento de vossa senhoria implicará no acatamento de todas as decisões tomadas na Assembleia.

obs: Para inscrição e participação na assembleia online, os sindicalizados e sindicalizadas devem enviar um e-mail manifestando o interesse para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. até o dia 12 de agosto, às 10h.


O link do google meet será enviado para o e-mail de todos e todas que se inscreverem na assembleia geral.

Rio Grande, 9 de agosto de 2021
Marcia Borges Umpierre
Presidenta

 

Na manhã da última sexta-feira, dia 30 de julho, a Aprofurg - Seção Sindical do ANDES-SN promoveu uma reunião aberta para a comunidade acadêmica em formato online. Com início às 10h, o tema do encontro foi "Carga horária docente e número de alunos". O assunto tem sido pauta recorrente entre os(as) docentes, e incentivou o sindicato a fazer este primeiro encontro oficial sobre o assunto.

A diretoria da Aprofurg começou a conversa com os motivos que levaram a Aprofurg a marcar o encontro. “A problemática tem sido levantada dentro do sindicato, através das nossas reuniões, e por isso resolvemos fazer este encontro inicial para ouvir vocês, e ver o que os professores e as professoras estão enfrentando”, destacou a segunda-secretária da Aprofurg, Tamires Podewils.

Já para a primeira tesoureira, Magda Abreu, a demanda surge também de outras conversas. “O assunto sobre a carga horária e o número de alunos também sido discutido dentro das próprias reuniões do Pangea - um espaço/grupo de rearticulação das licenciaturas e assuntos sobre a formação dos cursos - e por isso achamos, enquanto representação da categoria docente, que deveríamos levar a demanda adiante", explicou Magda

Depois da apresentação da diretoria da Aprofurg e dos inúmeros motivos que levaram a realização do encontro, vários professores e professoras, das mais diversas áreas relataram os seus anseios e as suas angústias sobre o tema. A reunião teve representatividade de diversos institutos da FURG, como Instituto de Ciências Humanas e da Informação (ICHI), Instituto de Educação (IE), Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Escola de Enfermagem (EENF), Escola de Química e Alimentos (EQA), além de representantes do campus de Santa Vitória do Palmar e de São Lourenço do Sul.

Além da pluralidade de representação de cursos, institutos e campi, outro fator chamou atenção: a troca de experiências entre os professores e as professoras que ingressaram a mais tempo na Universidade e os(as) docentes que entraram recentemente na FURG, inclusive durante a pandemia. Várias vozes ecoaram durante o encontro, mas o tom era sempre parecido, como por exemplo a insegurança sobre a carga horária e a falta de uma regulamentação que norteie as atividades dos(das) docentes.

O médico-veterinário e docente do campus de São Lourenço do Sul, Eduardo Dias explicou porque a realidade na cidade lourenciana é diferente. “Aqui no campus nós temos cursos pioneiros em uma cidade pequena, como tecnologia em gestão de cooperativas, licenciatura em educação do campo e agroecologia, então temos uma outra perspectiva, pois estamos em busca constante de alunos. Por outro lado, a Furg tenta otimizar os docentes, e isso acaba sobrecarregando os professores e as professoras que atendem vários cursos”, explicou.

A realidade em Santa Vitória do Palmar também não é muito diferente, como relatou a docente Darciele Menezes. “O problema é complexo principalmente nos campi fora da sede, pois temos que dar conta de atender todos os alunos, nos cursos de eventos, turismo e hotelaria. Além disso, sofremos com a evasão dos(das) discentes e uma regulamentação da carga horária é urgente”, disse Darciele.

Depois de amplo debate, foi deliberada a criação de um grupo para tratar especificamente sobre as políticas de distribuição de carga horária, enturmação e participação em outras comissões e comitês sobre o tema. A ideia é a realização de um encontro reservado com os(as) integrantes e, posteriormente, uma nova reunião ampliada para todos e todas.

 

 

Notícias Regionais

NOTÍCIAS DO SINDICATO NACIONAL DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR