
A APROFURG - Seção Sindical do ANDES-SN promoveu, na tarde da última quinta-feira (3), em sua sede, a roda de conversa "A Plataformização do Trabalho e as Implicações na Carreira Docente", reunindo a comunidade docente da FURG e do IFRS - Campus Rio Grande, além de convidados, em torno de um tema que vem ganhando espaço crescente no debate sindical: o avanço das plataformas digitais e da lógica algorítmica sobre as relações de trabalho, e seus efeitos concretos sobre a carreira e a saúde docente. A atividade integrou a programação do sindicato voltada à formação política da categoria, com a proposta de que pensar a saúde e as condições de trabalho docente não se restrinja ao chamado Setembro Amarelo, mas seja compromisso permanente ao longo de todo o ano.
Para conduzir o debate, a APROFURG recebeu Amanda Moreira da Silva, da diretoria do ANDES-SN, professora da UERJ e pesquisadora do trabalho docente há mais de quinze anos. A abertura ficou a cargo da diretoria da APROFURG, que saudou a presença de companheiros vindos de Pelotas e destacou que, embora o encontro ocorra no chamado Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre saúde mental, para o sindicato pensar a saúde docente é tarefa de todos os meses do ano.
Um processo de uma década com raízes de décadas
Amanda estruturou sua fala em quatro eixos: a precarização do trabalho no contexto tecnológico recente; o padrão dependente da educação superior brasileira e o colonialismo digital; as fases dessa dependência e seus efeitos sobre a carreira docente; e, por fim, os dados da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente, realizada pelo ANDES-SN.
A pesquisadora situou a plataformização como um fenômeno recente — nascido no Vale do Silício em 2009 e expandido globalmente em pouco mais de uma década —, mas fez questão de recusar qualquer leitura que a trate como algo inédito. A precarização do trabalho docente, lembrou, vem se aprofundando desde os anos 1990, com o desmonte de direitos trabalhistas em escala mundial e, no caso brasileiro, com a reforma do aparelho de Estado de 1995. Como país capitalista dependente, o Brasil carrega uma superexploração da força de trabalho que já era estrutural antes da chegada das plataformas — um conceito que a professora recuperou da teoria marxista da dependência, de Ruy Mauro Marini.
Ela também situou historicamente a expansão das universidades públicas: o REUNI, de 2007, ampliou o acesso, mas também aprofundou a precarização das condições de trabalho docente — um processo que já soma quase vinte anos e que, segundo Amanda, precisa ser compreendido nessa dimensão temporal para que se entenda o que as plataformas vêm "arrematar": maior controle, maior exigência e incentivo ao produtivismo.
Colonialismo digital e dependência das Big Techs
Um dos pontos centrais da exposição foi a dependência das universidades brasileiras em relação às big techs — sobretudo Google, Amazon, Meta, Apple e Microsoft, o chamado GAFAM. Segundo dados do observatório Observação Vigiada, que reúne pesquisadores da Unicamp e de outras instituições, cerca de 78% a 79% das instituições de ensino superior da América do Sul utilizam serviços do GAFAM, proporção semelhante à observada no Brasil, com a Google em disparada vantagem. Amanda observou que esses serviços se apresentam como gratuitos, mas geram valor a partir da dataficação: são os dados de docentes e instituições que alimentam esse modelo de negócio, ampliado durante a pandemia.
Essa dependência tecnológica, argumentou, produz uma "compressão espaço-temporal": o trabalho passa a acontecer em qualquer lugar e a qualquer hora, mediado por aplicativos de mensagens que se tornaram extensão das mãos dos trabalhadores. Amanda propôs uma analogia direta com a pauta pela redução da jornada 6x1, hoje em debate no Congresso Nacional: "nós estamos na escala 7x0, porque não tem tempo de descanso".
O que dizem os dados da Enquete Nacional
A Enquete Nacional do ANDES-SN, inspirada na Enquête Ouvrière que Karl Marx elaborou em 1880 para investigar as condições de trabalho nas fábricas francesas, foi realizada em duas etapas: um projeto-piloto em 2023, com 11 instituições e 1.874 docentes, e uma segunda etapa em 2024-2025, que alcançou 144 instituições e 3.847 respondentes — 3.591 docentes ativos e 256 aposentados. O questionário, com 74 perguntas organizadas em oito blocos, foi pensado, segundo Amanda, não para levantar dados por levantar dados, mas para provocar a autorreflexão dos trabalhadores sobre sua própria rotina e contribuir para a mobilização coletiva.
Os números apresentados desenham um quadro de sobrecarga naturalizada: 68% dos docentes trabalham frequentemente ou sempre aos finais de semana; 57% mantêm atividades laborais durante feriados; 75% afirmam trabalhar além da carga horária prevista em seu regime de trabalho. Entre as mulheres, a sobrecarga é ainda mais acentuada — 88% relatam acumular significativamente mais orientações, além do peso do trabalho doméstico não remunerado, em comparação aos homens.
No recorte específico sobre hiperconectividade, 89,3% dos respondentes usam diariamente aplicativos de mensagens para fins profissionais e 81,8% resolvem demandas fora do horário regular de trabalho — sem que suas instituições disponibilizem qualquer equipamento ou aplicativo institucional para essa finalidade. Os impactos na saúde acompanham esse quadro: 51,8% relatam piora geral das condições de saúde no último ano, 67% atribuem o adoecimento diretamente às condições de trabalho, 35,4% relatam transtornos de ansiedade — incluindo síndrome do pânico e fobia social —, 52% relatam redução nas horas de sono e 41% apontam diminuição da prática de exercícios físicos. Um dado adicional chamou atenção: 13% dos respondentes LGBT afirmaram já ter sofrido discriminação frequentemente ou sempre no ambiente de trabalho.
Amanda fez questão de recusar qualquer leitura individualizante desse quadro: "o adoecimento tem que ser visto como uma causa coletiva, um problema coletivo, porque o sistema é adoecedor". Segundo ela, tratar o adoecimento como fraqueza pessoal é um erro de análise que culpabiliza justamente quem assume estar adoecido, enquanto normaliza o sofrimento de quem segue produzindo em silêncio.
As vozes dos grupos focais
Para aprofundar os dados quantitativos, Amanda apresentou também depoimentos colhidos em grupos focais realizados com docentes da UERJ, publicados em revista produzida durante sua gestão na direção da seção sindical daquela universidade. Uma professora com 27 anos de UERJ relatou o acúmulo de orientações em todos os níveis — da graduação ao doutorado — como algo que a fez enxergar o próprio grupo focal quase como "um espaço terapêutico". Outra docente, com dez anos de casa, descreveu o cotidiano universitário como um trabalho fragmentado em que cada unidade reclama isoladamente, sem que a categoria consiga se articular coletivamente. Um professor recém-chegado à universidade, com apenas dois anos de carreira, relatou ter trabalhado todos os dias de um feriado recente, dormindo poucas horas para dar conta de relatórios, projetos e artigos simultâneos.
Amanda também associou a sobrecarga à política de "bolsificação" das universidades — um sistema em que a perda de determinada bolsa pode significar a perda de metade da remuneração de um docente, empurrando a categoria para um ciclo de produtivismo permanente. Na UERJ, 67,8% dos docentes declararam possuir dívidas, financiamentos ou empréstimos, quadro agravado, segundo a professora, pelos anos sem recomposição salarial e pelo custo de vida da cidade.
Debate: multitarefa, bolsas e os limites da própria organização sindical
A roda de conversa foi aberta à manifestação da plateia, e duas intervenções aprofundaram o debate. Uma professora chamou atenção para a valorização do comportamento multitarefa dentro do próprio sindicalismo — a ideia de que é possível assistir a uma palestra, preparar aula e responder demandas de trabalho ao mesmo tempo —, apontando que essa lógica também penetra as relações sindicais e dificulta o avanço da mobilização. Ela relatou observar, entre professores vindos da iniciativa privada, um estranhamento inverso: consideram a rotina acadêmica atual, incluindo o acúmulo de bolsas de valores muito superiores ao usual, "um paraíso" — evidência, segundo ela, de como a precarização acadêmica já é romantizada até por quem vem de fora.
Outra intervenção reforçou o ponto: o comportamento multitasking é hoje valorizado institucionalmente, mas tem custo cognitivo real, reduzindo a capacidade de problematização e favorecendo a aceitação passiva das condições de trabalho — um efeito que a colega classificou como "extremamente preocupante e desmobilizador".
Inteligência artificial: o discurso da facilitação em questão
Amanda dedicou parte final de sua fala à discussão sobre inteligência artificial generativa, tema que, segundo ela, o movimento sindical ainda debate de forma superficial — preso a questões de plágio e autoria, sem enfrentar a essência do processo: a dataficação, a perda de soberania tecnológica e a mercantilização financeirizada da educação, que já atingiu fortemente a educação básica e agora avança sobre o ensino superior. A professora citou a votação, esta semana, de um novo marco regulatório pelo Conselho Nacional de Educação, que dará às instituições doze meses para se adequar às normas de uso de IA — e que, na avaliação dela, trata o tema com "todo nível de superficialidade".
Seu alerta central foi sobre o discurso da facilitação: a ideia de que a IA "libera tempo" só seria verdadeira se o tempo economizado revertesse em descanso — e não, como de fato ocorre, em mais trabalho e mais hiperconexão. "Facilitando para quem?", questionou.
Os desafios para a resistência
Amanda encerrou sua fala propondo três frentes de enfrentamento para o movimento sindical: no plano epistemológico, a necessidade de conhecer a fundo essa nova realidade para qualificar a intervenção política; no plano da soberania, a defesa de que dados educacionais sejam reconhecidos como públicos, com infraestrutura pública, uso de softwares livres e vedação ao uso de dados docentes para treinamento de modelos proprietários das big techs; e no plano do trabalho, a incorporação de novas pautas à negociação coletiva — luta contra critérios algorítmicos de avaliação de desempenho, redução da burocratização, defesa do tempo protegido, limites à jornada estendida por dispositivos digitais, fornecimento de equipamentos de trabalho pelas instituições e o direito à desconexão, já avançado em países europeus.
"Nós, trabalhadores e trabalhadoras, jamais podemos ter o discurso de que a IA está facilitando a minha vida", resumiu a professora, defendendo que a tecnologia deve estar a serviço da classe trabalhadora — e não da intensificação de sua exploração.

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