
Um banco vazio costuma sugerir descanso, pausa, espera ou respiro. Mas, na entrada da sede da APROFURG - Seção Sindical do ANDES-SN, pintado de vermelho vivo, ele perde a função de mobiliário e passa a representar ausência.
A ausência de mulheres que não chegaram ao fim do dia. De avós, mães, filhas, colegas e amigas cujas vidas foram interrompidas de forma brutal pela violência de gênero — uma violência marcada, como destacou uma das falas do ato, pela "brutalidade que tem tomado conta da sociedade".
Foi para dar corpo a essa ausência que a APROFURG – lançou, nesta sexta-feira, 4 de setembro, às 9h30, em sua sede, o Banco Vermelho: um banco pintado na cor que simboliza o sangue das vítimas de feminicídio, gravado com a frase "Em memória de todas as que partiram, lutamos pelas que ficam".
Os números por trás do símbolo
O gesto não nasce no vazio. O Rio Grande do Sul concentra 38,8% das mortes por feminicídio de toda a região Sul e, enquanto a média nacional de crescimento foi de 4,7%, o índice no estado saltou 11,1% entre 2024 e 2025, somando 80 mortes confirmadas. Só nos três primeiros meses de 2026, o Rio Grande do Sul já registrava 27 feminicídios, aumento de quase 69% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em nível nacional, o país contabilizou 848 mulheres mortas por feminicídio entre janeiro e julho de 2026, número lembrado durante o ato pela professora Amanda Moreira da Silva, da diretoria do ANDES-SN.
Por trás de cada número, uma rede de desproteção: levantamentos apontam que a maior parte das vítimas não possuía registro de ocorrência policial prévio, e a esmagadora maioria não tinha nenhuma medida protetiva vigente no momento do crime. E a dor não se encerra na vítima: somente em 2025, os feminicídios no Rio Grande do Sul deixaram 116 órfãos, lembrete de que essa violência atravessa gerações.
A cerimônia
O lançamento reuniu o presidente da APROFURG, Gustavo Miranda, a vice-presidenta Angélica Miranda, além de professoras e professores da base do sindicato e convidadas e convidados, entre eles a professora Amanda Moreira da Silva (UERJ/diretoria do ANDES-SN).
Angélica Miranda abriu a cerimônia destacando o significado coletivo da iniciativa: "É uma homenagem às mulheres que lutam pelas suas causas, que acreditam no seu poder, na sua fala, na sua energia. É também o nosso posicionamento numa sociedade que nos desvaloriza, que nos desrespeita." A vice-presidenta lembrou ainda que o banco carrega a contribuição de várias mãos — da ideia à pintura, da escolha da frase à instalação da placa —, envolvendo funcionários e funcionárias, além de integrantes da diretoria.
A professora Júlia Matos, primeira secretária da APROFURG, situou a iniciativa numa perspectiva histórica: "As mulheres historicamente vêm passando por processos de violência. Temos aqui uma frase que remete diretamente à violência física, mas, acima disso, um processo social de violência que nos enjaula em diversas estruturas de sobrecarga." Ela associou o símbolo à realidade das professoras, submetidas a jornadas múltiplas de trabalho e cuidado: "Esse banco vem nos mostrar que, mais do que nunca, nossa luta sindical é por igualdade de direitos, mas também por igualdade na compreensão dos papéis de gênero."
Convidada para o lançamento, Amanda Moreira da Silva destacou a dimensão simbólica e coletiva do movimento, que já se espalha por diversas instituições: "O banco vermelho simboliza o sangue das mulheres assassinadas por feminicídio no Brasil e no mundo. É um convite à reflexão e um incentivo à denúncia." A professora da UERJ reforçou que a luta contra o feminicídio também precisa ser travada dentro do próprio movimento sindical: "Lutar pelas que ficam significa lutar também para que as mulheres permaneçam no ambiente sindical, porque muitas vezes somos expelidas do movimento por conta da violência de gênero que sofremos”.
O presidente Gustavo Miranda reforçou o caráter contraditório do momento — a necessidade de celebrar uma iniciativa que, idealmente, não deveria ser necessária: "O ideal mesmo era não precisar de um banco vermelho. Já é um absurdo essa violência no passado; ainda mais agora, no século XXI, com tanta tecnologia e conhecimento, ver essa violência aumentar”.
Participando remotamente, a primeira tesoureira, Itiara Veiga lembrou que a iniciativa nasceu de um trabalho coletivo, com a contribuição de funcionários(as) e integrantes da diretoria, e destacou o caráter de rede da campanha do Banco Vermelho, presente hoje em diversas universidades e instituições do país.
Um compromisso permanente
O Banco Vermelho não é um monumento de um dia. É peça permanente na sede do sindicato — um convite renovado, a cada passagem, ao compromisso coletivo com o respeito, proteção e a dignidade para todas.

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