
Entre os dias 28 e 31 de julho, a Universidade de Brasília (UnB) recebeu o XIV Congresso Nacional de Pesquisadores(as) Negros(as) (Copene), um dos maiores encontros do país dedicados à produção acadêmica antirracista. O evento reuniu pesquisadoras e pesquisadores de todas as regiões do Brasil em conferências, mesas-redondas, painéis temáticos, sessões de trabalhos acadêmicos, minicursos, oficinas, seminários nacionais e internacionais, além de lançamentos de livros, feiras de expositores e atividades culturais. A professora Simone Quadros Alvarez, da FURG, esteve presente representando a APROFURG - Seção Sindical do ANDES-SN, levando à capital federal a voz da categoria docente do extremo sul do país.
O relato de quem esteve lá
Coordenadora do Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para as Questões Étnico-Raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) da APROFURG e integrante do Coletivo Negras e Negros do ANDES-SN, Simone descreveu o Copene como um espaço de intensa troca política e acadêmica, que atravessou diferentes áreas do conhecimento em atividades diversas — sempre vinculadas à pauta antirracista, ainda que intercaladas com momentos culturais.
Um dos pontos que a professora fez questão de destacar foi a primeira parceria formal entre o ANDES-SN e a Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN), materializada por meio de um estande do Sindicato Nacional dentro do congresso, com o objetivo de aproximar pesquisadoras e pesquisadores negros da organização sindical. Para Simone, essa aproximação não é secundária: a educação antirracista não se sustenta sem luta política organizada, e é justamente essa articulação entre entidade sindical e movimento negro acadêmico que permite que docentes negras e negros se sintam mais fortalecidos e acolhidos, encontrando nas seções sindicais um espaço de aquilombamento frente ao racismo que atravessa o cotidiano.
Em registro gravado durante o evento, a professora relatou a satisfação de representar a APROFURG naquele espaço de "troca e muito conhecimento em todas as áreas de pesquisa", mencionando a diversidade de mesas, minicursos, sessões temáticas e painéis que compuseram a programação. Encerrou sua participação reafirmando o lema histórico da seção sindical: quem tem sindicato nunca está só — e deixando, em suas palavras, "um abraço negro" a todas e todos que acompanhavam a cobertura.
Uma sessão temática pensada a partir da FURG
Além do relato pessoal, a contribuição da professora ao congresso teve outra dimensão concreta: a proposição da Sessão Temática "O silêncio do privilégio: branquitude, consciência negra e racismo estrutural", organizada por Matheus Souza em parceria com Simone Alvarez, também educadora antirracista.
A proposta foi aprovada ainda no início deste ano e reuniu 18 trabalhos submetidos por pesquisadoras e pesquisadores com vivências e produções na área proposta, dos quais 13 foram aprovados para apresentação. Ao longo de dois dias, os trabalhos foram apresentados e discutidos coletivamente, em debates voltados a minimizar desigualdades e fortalecer equidades sociais relacionadas às vivências cotidianas do público-alvo das políticas de ações afirmativas. Fundamentada nos estudos críticos da branquitude e nas epistemologias negras, a sessão discutiu como os privilégios raciais se estruturam e se reproduzem nas instituições, nas políticas públicas e nos espaços acadêmicos — deslocando o foco analítico da culpabilização individual para a responsabilização das estruturas que sustentam as desigualdades raciais. O objetivo central das reflexões foi reforçar a consciência racial como elemento indispensável para o enfrentamento do mito da democracia racial brasileira e para a construção de uma democracia efetivamente comprometida com a justiça social e racial.
Sindicalismo, ações afirmativas e os desafios que seguem em aberto
A presença da APROFURG no Copene se deu no contexto de uma programação mais ampla, promovida pelo ANDES-SN dentro da campanha "Sou Docente Antirracista", que colocou em debate o papel do movimento sindical no combate ao racismo e os obstáculos ainda enfrentados pela política de cotas nas universidades federais.
Direções do Sindicato Nacional, da Fasubra e do Sinasefe discutiram a necessidade de compreender classe, raça e gênero como dimensões indissociáveis da luta sindical, destacando desafios persistentes como a sub-representação de pessoas negras em cargos de gestão e as dificuldades de acesso à pós-graduação, sobretudo para mulheres negras. Já representantes do Observatório das Políticas Afirmativas Raciais (Opará), do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério da Igualdade Racial (MIR) apresentaram um panorama preocupante sobre a implementação da Lei de Cotas em concursos públicos: levantamentos apontaram falhas estruturais na ocupação das vagas reservadas a candidatas e candidatos negros, motivando inclusive a atuação conjunta desses órgãos para cobrar mudanças concretas na gestão dos concursos docentes.
O debate reforçou um consenso entre as participantes e os participantes das mesas: políticas antirracistas não se consolidam apenas com sua aprovação formal. Elas exigem organização coletiva permanente, mobilização e disputa política cotidiana para que se traduzam, de fato, em financiamento, implementação e efetividade.
O compromisso da APROFURG segue firme
Para a APROFURG, a participação de Simone Alvarez no XIV Copene Nacional reforça um compromisso histórico da seção sindical com a pauta antirracista e com o fortalecimento das políticas de ações afirmativas na FURG e no IFRS – Campus Rio Grande. A atuação da professora nos dois eixos do congresso — tanto no relato de sua trajetória sindical quanto na construção coletiva da sessão temática sobre branquitude — evidencia que a luta antirracista, para a APROFURG, não é pauta secundária, mas parte constitutiva da defesa da universidade pública, democrática e comprometida com a diversidade da classe trabalhadora.
Mais do que ocupar espaços, a seção sindical entende que construir uma universidade antirracista é tarefa cotidiana de toda a categoria docente — e é esse compromisso que a APROFURG segue levando a cada congresso, mesa e sessão temática em que se faz presente.

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