De sexta (3) a domingo (5), entre pilão de coco, batuque de tambor de crioula e — principalmente — muito debate, São Luís do Maranhão sediou o 69º Conad (Conselho do ANDES-SN), que é a segunda maior instância deliberativa do ANDES-SN. Sob o tema "Guarnicê a luta pela educação pública na Terra da Balaiada: contra o imperialismo e a extrema direita", a categoria docente das universidades públicas do país se reuniu por três dias de intensos debates, deliberações e, como não podia faltar, muita cultura popular maranhense. A APROFURG esteve lá do início ao fim, com uma delegação de oito integrantes — um delegado e sete observadores — acompanhando de perto cada etapa do Conad.
Abertura com Guarnicê, revista nova e diagnóstico de saúde docente
A abertura, na manhã de sexta (3), já deu a temperatura do que viria pela frente. A mesa reuniu o presidente do ANDES-SN, Cláudio Mendonça, a secretária-geral Fernanda Maria, o 1º tesoureiro Sérgio Barroso, e um time grande de convidados representando os movimentos sociais e entidades do Maranhão — MST, MAM, SINASEFE, SINDUEMA, DCE da UFMA e o Movimento de Defesa da Ilha, entre outros. A cerimônia teve embalo musical com Vicente Melo, em homenagem à obra de João do Vale, e discursos que já anteciparam boa parte da pauta do Conad: denúncias sobre precarização do trabalho docente, a disputa pela paridade na reitoria da UFMA e alertas sobre ameaças a comunidades tradicionais da região.
Dois lançamentos marcaram a manhã. O primeiro foi a edição nº 78 da Revista Universidade e Sociedade, publicação que celebra os 45 anos de organização do ANDES-SN reunindo reflexões sobre autonomia universitária, financiamento, valorização da carreira e enfrentamento às políticas de mercantilização do ensino. O segundo foi a apresentação do relatório preliminar da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente, conduzida pelo GTSSA — e os números chamam atenção: cerca de oito em cada dez docentes se sentem sobrecarregados, e quase 70% trabalham regularmente aos fins de semana. Foi anunciada também, na mesma manhã, a criação da Comissão de Assédio do Conad — um passo importante diante do tanto que ainda se debate sobre violência institucional dentro das universidades. Ao final, Cláudio Mendonça encerrou amarrando a luta docente à própria história da Balaiada e à cultura maranhense, dando o tom simbólico que atravessaria o Conad inteiro.
Tema I: a conjuntura que preocupa
Ainda na sexta, a tarde foi de Plenária do Tema I – Atualização do Debate sobre Conjuntura e Movimento Docente, com a mesa composta por Letícia Nascimento (2ª vice-presidenta, que presidiu a plenária), Fernanda Mendonça, Regina Célia da Silva e Eralci Terézio. O debate girou em torno de quatro textos: a atualização de conjuntura apresentada pela Diretoria do ANDES-SN; a defesa de um sindicato de frente única e classista no enfrentamento ao imperialismo e à extrema direita; uma reflexão sobre a confluência democrática necessária para derrotar o fascismo e superar o neoliberalismo; e um texto sobre solidariedade internacional da classe trabalhadora, da Bolívia à Palestina, de Cuba à Argentina.
Letícia Nascimento chamou atenção para o desastre ambiental na Venezuela, o cerco a Cuba e o genocídio na Palestina como expressões do avanço do imperialismo — e destacou que o apoio a candidaturas alinhadas à classe trabalhadora nas eleições de 2026 ainda divide opiniões dentro do próprio Sindicato, tema que seguiria sendo debatido nos dias seguintes. A APROFURG teve presença ativa: integrantes da delegação assinaram o Texto 4, sobre solidariedade internacional, e o presidente Gustavo Miranda foi sorteado para fazer uso da palavra. Miranda cobrou mais solidariedade internacional diante do avanço do fascismo na América Latina, denunciou a proposta do governo do Rio Grande do Sul de leiloar 98 escolas públicas em PPPs — com repasse de recursos muito maior às empresas privadas do que à própria rede pública — e resumiu o recado: "a defesa incondicional da educação pública, gratuita, laica e socialmente referenciada de qualidade já é uma bandeira nossa, mas tem que ser cada vez mais reforçada”.

Sábado: trabalho de base nos Grupos Mistos, votações e atos políticos
O segundo dia começou cedo, com os Grupos Mistos do Tema III pela manhã — espaços menores de debate que amadurecem as posições antes das plenárias gerais. À tarde e à noite, o Conad entrou na sua primeira instância efetivamente deliberativa: a Plenária do Tema II – Atualização dos Planos de Lutas dos Setores e Plano Geral de Lutas, coordenada por Caroline Lima (1ª vice-presidenta). Foram 28 Textos de Resolução em pauta, e o volume de decisões aprovadas foi grande.
Entre os destaques: a entrada oficial do ANDES-SN no Fórum Nacional de Educação (FNE); a definição de que o Sindicato atuará já a partir do primeiro turno das eleições de 2026 para barrar a extrema direita, com carta de apoio às candidaturas majoritárias e proporcionais de esquerda; a realização do XXII Encontro do setor Estaduais/Municipais/Distrital em Dourados (MS), em novembro, em parceria com a Aduems; avanços na pauta do setor Federais, como a luta pelo reenquadramento de docentes aposentados e o fim da contribuição previdenciária sobre aposentadorias; a extensão do RSC ao Magistério Superior e a campanha "Magistério Unido, Piso Garantido"; a aprovação de um Dia Nacional de Luta da Multicampia e Fronteira para o segundo semestre — pauta que a APROFURG ajudou a construir diretamente, já que um grupo expressivo de sindicalizadas e sindicalizados da seção assina o TR 20; e a aprovação do TR 19, sobre equidade geográfica na progressão da carreira docente, também assinado pela APROFURG. No campo internacional, foi aprovado o Dia de Luta em Defesa de Cuba (13/08) e a solidariedade à Venezuela após o terremoto de junho.
A plenária também prestou homenagens simbólicas: à Apruma, seção sindical anfitriã, e a duas trabalhadoras/trabalhadores com mais de 30 anos de serviço, além de reverenciar dois nomes fundadores da própria Apruma e do ANDES-SN, criado em 1981 — lembrando inclusive a histórica greve de fome nacional de 1998. Os trabalhos daquele dia só terminaram por volta das 22h30, com a pauta de Seguridade Social e Aposentadoria (GTSSA) remetida para domingo.
Foi também na tarde de sábado que dois atos políticos tomaram a palavra na plenária: o Coletivo de Negras e Negros e o Coletivo LGBTI+ do ANDES-SN. O primeiro reafirmou que a luta antirracista é parte constitutiva da luta de classes, cobrando que o combate ao racismo seja compromisso de todo o Sindicato, e não só de quem sofre seus efeitos — "somos docentes quando denunciamos o racismo que atravessa nossas instituições", provocou o coletivo. Em seguida, o Coletivo LGBTI+ reivindicou o reconhecimento permanente da caixa de identificação não binária dentro do Sindicato, denunciando a sub-representação de pessoas trans e não binárias na categoria. Iris Moraes, docente da Unifap e integrante do coletivo, resumiu o recado: "eu existo, nossa comunidade existe, e nós reivindicamos respeito em políticas que mudem essa desigualdade estrutural no nosso país”.
A luta antirracista também teve um capítulo especial protagonizado pela APROFURG: a professora Simone Alvarez, da base da seção sindical e integrante do Coletivo de Negras e Negros do ANDES-SN, compartilhou sua experiência no Conad e reafirmou o compromisso com a pauta antirracista dentro do Sindicato Nacional. Sua participação ganhou ainda mais relevo com a publicação de um artigo na Revista Universidade e Sociedade nº 78 sobre aquilombamento — a construção coletiva de espaços de encontro, luta e resistência por igualdade, justiça e respeito dentro das instituições sindicais, da APROFURG ao ANDES Sindicato Nacional.
Ainda no sábado, o Conad também foi palco de um momento especial para a APROFURG: o lançamento do Caderno de Textos Adufop – Volume 2, publicação que reúne reflexões de docentes da Adufop, da Diretoria do ANDES-SN e de diversas seções sindicais sobre a luta docente e a defesa da universidade pública. A obra traz o capítulo "Greve Solidária: as enchentes PLC 189/2021 (no Rio Grande do Sul e a atuação da APROFURG", assinado por Gustavo Miranda e Márcia Borges Umpierre, que resgata a mobilização da categoria diante da maior tragédia socioambiental da história do estado — as ações de solidariedade construídas coletivamente, o trabalho da APROFURG nos abrigos da cidade do Rio Grande e o compromisso com a reconstrução da vida e dos direitos das pessoas atingidas. Registrar essa trajetória é também fortalecer a memória da nossa categoria e inspirar as lutas presentes e futuras.
Domingo: o fechamento na Terra da Balaiada
O último dia começou, ainda pela manhã, com a retomada da votação dos TRs remanescentes da Política de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA), reafirmando a defesa dos direitos de servidoras e servidores aposentados: fim da contribuição previdenciária sobre aposentadorias, luta pela paridade e integralidade, resistência ao PLP 189/2021 (que pretende transferir ao INSS a gestão das aposentadorias do funcionalismo federal) e ampla divulgação dos dados da enquete sobre condições de trabalho e saúde docente nas seções sindicais.
Antes da Plenária do Tema III – Questões Organizativas e Financeiras, o professor Domício Magalhães Maciel resgatou a história das lutas estudantis e docentes no Maranhão — da greve de 1979, que garantiu meia-passagem no transporte coletivo, às greves de 2015 e 2024 — intercalando o relato com poemas de sua autoria em defesa da mobilização coletiva. A plenária, coordenada por Virgínia Viana (2ª vice-presidenta da Regional Nordeste I), aprovou a prestação de contas de 2025 e a previsão orçamentária para 2027, além de recomendações para aprimorar a transparência financeira do Sindicato. Foi aprovada também a criação de uma comissão de sete integrantes para propor mudanças no formato e na metodologia dos Congressos e Conads do ANDES-SN, com proposta a ser apresentada no CONAD Extraordinário de novembro, em Brasília, e submetida ao 45º Congresso.
Por aclamação, Campinas (SP) foi escolhida como sede do 70º CONAD, que será organizado pela Adunicamp — seção sindical que completa 50 anos em 2027 e viu nascer o próprio ANDES-SN, em 1981. A cidade foi apresentada como polo de ciência, tecnologia e inovação, com destaque para o compromisso da Adunicamp com sustentabilidade, economia solidária e cozinhas comunitárias que vão abastecer os lanches do próximo Conad.
Fechando a programação deliberativa, o Conad aprovou por aclamação um bloco de 16 moções que expressam as lutas do movimento docente e o caráter classista do Sindicato Nacional. Entre os destaques estão o repúdio à privatização de escolas estaduais no Rio Grande do Sul e ao projeto de lei que fragiliza o ensino de filosofia e sociologia na educação básica; a urgência da mobilização pela aprovação, no Senado, da redução da jornada de trabalho para 30 horas sem redução salarial e do fim da escala 6x1; a exigência de celeridade no julgamento, pelo STF, de ações em defesa da população trans; e o apoio à aprovação do projeto de lei estadual mineiro 5365/2026, em defesa da democracia e da autonomia das universidades estaduais de Minas Gerais. O Conad também manifestou apoio ao docente da UFES Vitor Cei, alvo de ataques e ameaças por sua pesquisa sobre o conceito de "cristofascismo bolsonarista" na literatura e na política, repudiou a regulamentação da educação domiciliar e a presença da empresa Palantir no Brasil, e condenou os sucessivos adiamentos no calendário eleitoral para diretorias de centros na UFMA, cujas eleições deveriam ter ocorrido em março de 2026.
Os trabalhos foram encerrados no domingo, por volta das 14h, com a leitura da Carta de São Luís, documento que sintetiza o conjunto de discussões e resoluções aprovadas ao longo do Conad
Os números do 69º CONAD
O Conad reuniu 81 seções sindicais, com 78 delegadas e delegados credenciados (77 seções mais o presidente do ANDES-SN). Participaram ainda 167 observadoras e observadores, 3 convidados, 3 acompanhantes, 12 crianças, 34 diretoras e diretores do ANDES-SN, 13 assessoras(es) de comunicação, 1 assessoria jurídica, 10 trabalhadoras(es) do ANDES-SN e da Apruma, e 45 monitoras e monitores. No total, foram 245 pessoas entre delegadas(os) e observadoras(es), somando 366 participantes no geral — um retrato da dimensão nacional que o Conad segue assumindo a cada edição.
O saldo da APROFURG
Em vídeo gravado logo após o encerramento, o presidente da APROFURG, Gustavo Miranda, fez um balanço da participação da seção sindical: três dias de intensa atividade em busca da renovação das lutas do Sindicato Nacional, com destaque para a definição da atuação do ANDES-SN nas eleições deste ano — defesa de candidaturas comprometidas com a classe trabalhadora e combate ao retorno da extrema direita ao poder — e para o avanço das questões organizativas e financeiras que seguem agora para o Conad Extraordinário de novembro.
O 69º CONAD terminou, mas o Guarnicê segue: a APROFURG volta de São Luís com pautas assinadas, deliberações conquistadas e a certeza de que a luta pela educação pública, contra o imperialismo e a extrema direita, segue reverberando por todas as universidades do país.

Delegação
A APROFURG - Seção Sindical do ANDES-SN participou com uma delegação de 8 professores e professoras, sendo um delegado e sete observadores(as), sendo elas(es) as(os) docentes Gustavo Miranda, Angélica Miranda, Denise Sena, Itiara Veiga, Cristiano Engelke, Tiago Dziekaniak, Simone Alvarez e Júlia Matos.

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