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A ADUFPel sediou, nos dias 8 e 9 de maio, o XXVIII Encontro da Regional RS do ANDES-SN. Docentes da base e representantes das seis seções sindicais da regional, que construíram a atividade (ADUFPel, Aprofurg, Sedufsm, ANDES/UFRGS, Sesunipampa e SindoIF) e da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul se reuniram em Pelotas (RS) para debater os desafios das Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e do movimento sindical docente, promovendo reflexões sobre carreira, aposentadoria, condições de trabalho e defesa da universidade pública. 

A programação começou com a mesa de abertura, composta pela presidenta da ADUFPel, Adriana Lourenço da Silva, pelo representante do SindoIF, André Rosa Martins, e pela representante do ANDES/UFRGS, Daniele Azambuja de Borba Cunha. Adriana destacou que o encontro foi pensado como espaço de debate e reflexão voltado ao fortalecimento das lutas da categoria e à construção de ações concretas em defesa da universidade pública, laica, gratuita e socialmente referenciada. André ressaltou a importância do encontro para avançar em temas fundamentais para o movimento sindical docente, enquanto Daniele enfatizou a necessidade de fortalecer coletivamente as ações do ANDES-SN e a unidade da categoria diante dos desafios enfrentados pela educação pública.

Na sequência, a Mesa 1 - “Compromisso acadêmico e direitos de aposentadoria” - contou com exposições de Luiz Henrique Schuch (ADUFPel) e Jadir Lemos (Sedufsm), sob coordenação de Norlai Azevedo (ADUFPel).

Durante sua fala, Schuch relacionou o debate sobre aposentadoria à própria concepção de universidade pública e ao papel social da carreira docente. O professor resgatou o histórico das reformas previdenciárias desde a Emenda Constitucional 20, de 1998, destacando os impactos sobre docentes da ativa e aposentados/as. Segundo ele, “o tipo de relação estruturada que é aprendida pela prática, por quem trabalha na universidade, especialmente o corpo docente, é decisiva”, defendendo que a carreira docente precisa garantir estabilidade, segurança e perspectiva de futuro para fortalecer o compromisso com a instituição pública.

O diretor da ADUFPel também criticou medidas como o fim da integralidade e da paridade, a criação do Funpresp e a cobrança previdenciária sobre aposentados/as, classificada por ele como “um confisco injustificável, ilegal”. Para Schuch, o enfraquecimento dos direitos e das garantias da carreira produz insegurança e individualização dentro das universidades. “As pessoas olham para aquela realidade e dizem: ‘não, eu tenho que me agarrar nesse meu direito, nesse cargo que é meu’, perdendo a perspectiva da função pública daquele cargo”, afirmou.

Ao analisar os impactos dessas mudanças sobre as universidades federais, Schuch relacionou a retirada de direitos ao avanço de projetos privatizantes dentro das instituições públicas. “É impossível que quem implementa uma estratégia dessas não saiba que há um embate de projetos sobre que papel tem a universidade brasileira”, declarou. O docente também criticou alterações nas negociações de carreira, especialmente após 2010 e 2012, apontando o rebaixamento da posição do Professor Adjunto do topo para a classe inicial da carreira, o enfraquecimento do vencimento básico frente à ampliação das gratificações e os impactos sobre a Dedicação Exclusiva. “Nós tínhamos toda uma luta histórica para incentivar os docentes a terem dedicação exclusiva, exatamente para se dedicarem a um projeto de fôlego na universidade”, destacou.

Na sequência, Jadir Lemos, docente da Sedufsm e aposentado da UFSM há nove anos, refletiu sobre as mudanças vividas pela universidade pública e os impactos das reformas previdenciárias sobre os servidores públicos. Ao recordar a Emenda Constitucional 20, afirmou que “a aposentadoria ainda era um sonho das pessoas” antes das mudanças implementadas em 1998. Segundo ele, desde então os trabalhadores passaram a sofrer sucessivas perdas de direitos.

Jadir criticou a postura dos sucessivos governos em relação à educação pública e afirmou que “os que se sucederam desde 1998, os de direita e os de esquerda, vêm cada vez mais depreciando a educação”. O docente também demonstrou preocupação com o distanciamento entre os novos professores e o compromisso coletivo com a universidade pública. “Eu olho para a nova geração de docentes que estão na universidade e fico me perguntando o que é que eles vieram mesmo buscar aqui”, declarou. Para ele, “não há mais um comprometimento com a instituição e com o público”.

O professor relacionou esse cenário à intensificação e à precarização das condições de trabalho e ao avanço da terceirização nas instituições de ensino. Ao compartilhar sua experiência pessoal, relatou: “Eu resolvi me aposentar porque eu não sentia mais meu olho brilhar ao chegar na universidade”. Também chamou atenção para os impactos das atuais condições de trabalho sobre a saúde. “Hoje, muitas vezes, você tem 10, 12 orientandos de graduação e pós-graduação. Você não tem mais controle do seu tempo”, afirmou.

Ao defender a necessidade de mobilização coletiva, Jadir ressaltou que a recuperação de direitos depende da organização da categoria. “Quanto mais tempo nós permanecemos calados, maior a possibilidade de termos outras reformas que nos levem cada vez mais para o buraco”, alertou. O docente também destacou a importância de ampliar o debate sobre condições de trabalho nas universidades públicas, utilizando dados da Enquete Nacional sobre Saúde Docente do ANDES-SN como instrumento de mobilização e pressão política.

Encerrando a programação da sexta-feira, os participantes confraternizaram em um momento de integração e convivência ao som do músico Marcos Werner.

Desafios das Instituições de Ensino Superior e da organização sindical docente 

A segunda mesa do Encontro da Regional RS do ANDES-SN, realizada na manhã de sábado (9), debateu “Instituições de Ensino Superior (IES) públicas na contemporaneidade e os desafios para o movimento sindical”. A atividade contou com a participação de Manoel Porto Júnior, do Sinasefe IFSul, e de Valdelaine da Rosa Mendes, da ADUFPel, sob coordenação de Adriana Lourenço da Silva, presidenta da ADUFPel.

Professor do IFSul há mais de 30 anos, Porto Júnior trouxe reflexões sobre carreira e aposentadoria no serviço público. Segundo ele, o compromisso dos/as servidores/as com a sociedade depende de condições estáveis de trabalho e de garantia de direitos. Para o dirigente, o enfraquecimento das carreiras e das garantias previdenciárias compromete a própria relação dos/as trabalhadores/as com o serviço público e favorece processos de precarização e privatização.

Ao abordar as mudanças nas carreiras docentes, criticou a ausência de estudos sobre os impactos das alterações para aposentados/as e relembrou disputas travadas nas negociações salariais. Apesar das críticas, ressaltou conquistas históricas da educação federal. “As carreiras na América Latina inteira são muito piores do que as nossas”, afirmou, citando a importância da organização sindical brasileira para a manutenção de direitos.

A discussão avançou para os desafios políticos e estruturais do movimento sindical diante do capitalismo dependente brasileiro. Para o palestrante, cabe à classe trabalhadora construir um projeto de país articulado à defesa da educação pública. “Cabe à classe trabalhadora a construção de um projeto de país”, afirmou.

Nesse sentido, defendeu que a autonomia universitária não pode significar isolamento social. “A autonomia não significa que a gente tem que ficar separado da sociedade”, destacou. A partir de referências a Antonio Gramsci, argumentou: “O espaço da universidade devia ser um espaço de discussão dos problemas da sociedade e de busca de soluções”, disse.

O dirigente enfatizou, ainda, a importância da aproximação entre sindicato e espaços institucionais, como programas de extensão, grupos de pesquisa e programas de pós-graduação. Como exemplo, citou o Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica, que, segundo ele, contribuiu para a formação de representantes sindicais no IFSul. “A maior parte dos nossos militantes sindicais que são representantes de base são provenientes do mestrado que a gente tem”, relatou.

Outro ponto abordado foi a necessidade de ampliar os espaços de articulação política e sindical. “A gente não pode se isolar. A gente tem que enfrentar o ambiente contraditório da realidade da unidade de classe”, afirmou. Manoel também apresentou experiências organizativas do Sinasefe no IFSul, destacando mudanças voltadas à ampliação da participação das mulheres e iniciativas de aproximação com aposentados/as, como encontros mensais e atividades culturais. Para ele, ações desse tipo fortalecem os vínculos coletivos e ampliam a participação sindical. “O sindicato tem que se aproximar da disputa do rumo da sociedade. Não pode trabalhar à parte”, concluiu.

A mesa também contou com a participação da professora da Faculdade de Educação da UFPel, Valdelaine da Rosa Mendes, que abordou os desafios enfrentados pelas instituições públicas de ensino diante dos processos de mercantilização e privatização da educação. Partindo da reflexão de que o sindicato deve estar vinculado a um projeto de universidade pública comprometido com os interesses da classe trabalhadora, a docente afirmou que é preciso compreender “os meios de destruição da instituição pública de ensino hoje no Brasil” para organizar formas de resistência.

Ao longo da exposição, Valdelaine retomou autores como Florestan Fernandes e Luiz Carlos de Freitas para discutir como as universidades brasileiras foram historicamente estruturadas a partir de projetos das elites econômicas, distantes das demandas populares. Segundo ela, princípios como autonomia universitária, gestão democrática e coletividade vêm sendo fragilizados por mudanças graduais que alteram o cotidiano das instituições públicas.

A professora chamou atenção para o que definiu como processos de “privatização endógena”, caracterizados pela introdução de lógicas mercantis dentro das universidades. Entre os exemplos citados, destacou a pressão por indicadores e certificações, a expansão da educação a distância em condições precárias e a crescente competição acadêmica. “Educação não é espaço de competição”, salientou.

Valdelaine também problematizou as mudanças nas relações de trabalho e convivência dentro das universidades. Segundo ela, processos administrativos e tecnológicos vêm reduzindo os espaços coletivos e aprofundando o individualismo institucional. Citou como exemplos o excesso de comissões, a centralização de processos no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e os impactos do Programa de Gestão e Desempenho (PGD), que, em sua avaliação, enfraquece vínculos entre servidores, estudantes e comunidade acadêmica.

Outro ponto abordado foi a política de editais por adesão e a atuação das fundações privadas de apoio dentro das universidades públicas. Com base em dados do Portal da Transparência, a professora apresentou números relacionados à distribuição de bolsas na UFPel e argumentou que esse modelo contribui para a precarização do trabalho e o aprofundamento de hierarquias internas. Segundo ela, em janeiro de 2026 foram registradas 608 bolsas vinculadas à fundação de apoio da universidade, sendo que a maior parte não era destinada a estudantes em formação.

Para Valdelaine, esses mecanismos produzem “naturalizações” no cotidiano universitário e dificultam a construção de lutas coletivas. “Nosso grande desafio é levar esse debate para os nossos pares e produzir reflexão crítica sobre esses processos”, defendeu.

Apesar das críticas ao avanço da privatização e da lógica mercantil, a docente ressaltou: “Passados quase 30 anos, seguimos com a universidade pública e gratuita graças à luta do movimento sindical e das entidades da educação”. 

Organização sindical e multicampia no RS

O XXVIII Encontro da Regional RS do ANDES-SN foi encerrado, na tarde de sábado (9), com debates sobre organização sindical, multicampia e os desafios enfrentados pelas seções sindicais em universidades e institutos federais. A programação contou ainda com o lançamento do Caderno 29 - “Memória e Luta: Só o ANDES-SN nos Representa”, organizado pelo Grupo de Trabalho de Organização Sindical das Oposições (GTO) nacional.

Durante o lançamento, a diretora do ANDES/UFRGS, Maria Ceci Misoczky, destacou que a publicação resgata mais de duas décadas de enfrentamento ao PROIFES e sistematiza experiências de organização sindical em diferentes universidades do país. “Essa memória de como nós fomos e ainda estamos sendo sistematicamente atacados, não apenas como sindicato, mas como categoria, é uma história que a gente não pode deixar de contar”, afirmou.

Segundo Ceci, o GTO surgiu a partir da organização de docentes das bases vinculadas ao PROIFES que participaram ativamente da greve docente de 2024. “É dessa presença dentro do ANDES, acolhidos no nosso comando nacional de greve, que se forja a criação do GTO”, declarou. O caderno reúne relatos de seções sindicais e coletivos de oposição, além de recuperar episódios históricos das disputas em torno da representação sindical docente. 

Ao tomar a palavra, o ex-presidente do ANDES-SN e atual diretor da ADUFPel, Luiz Henrique Schuch, que também fez parte da mesa, resgatou a trajetória histórica do movimento docente e das disputas em torno da organização sindical durante o processo de redemocratização do país. Em sua fala, relacionou a criação do Sindicato Nacional ao contexto do chamado novo sindicalismo, marcado pelas greves operárias do ABC paulista e pela organização dos movimentos populares e do campo. Schuch também relembrou os debates travados nos primeiros congressos do ANDES-SN sobre o modelo organizativo da entidade, destacando a defesa de um sindicato nacional estruturado pela base docente. 

Encerrando a programação do encontro, a mesa “Organização sindical e multicampia: seções sindicais” reuniu Cláudio Fernandes, Rafael Campos e Vânia Rey Paz, com coordenação da Marcia Umpierre, docente da base da Aprofurg. O debate abordou os desafios da organização sindical em instituições multicampi, as dificuldades de mobilização nos campi do interior e os impactos da precarização orçamentária sobre docentes e estudantes.

Marcia relembrou o processo de fortalecimento da organização docente na FURG durante a greve de 2016 e destacou a necessidade de reconhecimento institucional da multicampia. “O desafio era, e é até hoje dentro da universidade como um todo, é a Universidade Federal do Rio Grande se reconhecer como uma universidade multicampi”, afirmou. Ela também apontou dificuldades relacionadas à sobrecarga de trabalho, falta de infraestrutura e pertencimento institucional nos campi fora da sede.

Representando a UFSM, Vânia Rey Paz relatou as condições precárias encontradas nos primeiros anos do campus Palmeira das Missões e criticou os efeitos dos cortes orçamentários e da uniformização dos processos de avaliação docente. “Os instrumentos de avaliação que nós temos, tanto para progressão quanto para promoção, são os mesmos, viva a pessoa na sede ou fora de sede”, afirmou.

Pela Sesunipampa, Rafael Campos destacou os obstáculos para a organização sindical em uma universidade distribuída em dez campi. “O desafio de tentar mobilizar uma base docente que está pulverizada em dez unidades” foi um dos principais pontos de sua fala. Segundo ele, problemas relacionados à evasão estudantil, assistência estudantil e trabalho remoto impactam diretamente a vida coletiva e sindical da universidade.

Encerrando a mesa, Cláudio Fernandes refletiu sobre a estrutura multicampi dos institutos federais e criticou a lógica verticalizada das instituições. “A gente tem uma cultura muito, muito vertical. E a lógica da multicampia é para ser algo horizontal, totalmente diferente”, afirmou. O dirigente também defendeu a construção de experiências mais integradas e democráticas entre os diferentes campi e regiões.

Ao final do encontro, os debates reforçaram a importância da organização sindical de base, da defesa do financiamento público da educação e da construção de políticas específicas para as instituições multicampi, diante dos desafios enfrentados pela educação pública federal.

Texto: Assessorias de Imprensa ADUFPel e Aprofurg 

 

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