
No início da noite desta segunda-feira, dia 06 de abril, a Comissão da Verdade – Comissão Luiz Laurino da APROFURG - Seção Sindical do ANDES-SN apresentou o relatório “A FURG sob os olhares da comunidade de informações da ditadura”, resultado de anos de pesquisa em documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), preservados no Arquivo Nacional. O estudo analisou como o aparato repressivo da ditadura civil-militar brasileira (1964–1988) monitorou sistematicamente a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), entre sua criação, em 1969, e a redemocratização. Participaram da mesa do evento o presidente da APROFURG, Gustavo Miranda, o coordenador da Comissão da Verdade, Cristiano Engelke, e o autor do documento, Cleverton Luis Freitas de Oliveira.
A investigação identificou uma ampla rede de vigilância que atingiu estudantes, docentes e técnicos, com registros detalhados sobre atividades acadêmicas, posicionamentos políticos e participação em movimentos sociais. Documentos revelaram perseguições administrativas, controle de organizações estudantis, monitoramento de eventos e até avaliações ideológicas de professores, muitas vezes baseadas em suspeitas frágeis ou denúncias informais.
O relatório também evidenciou que a universidade não esteve isolada do projeto político da ditadura. Ao contrário, foi integrada a uma lógica de desenvolvimento econômico alinhada ao regime, ao mesmo tempo em que sofria intervenções e vigilância constantes. A chamada “comunidade de informações” — formada por órgãos como o SNI e os centros de inteligência das Forças Armadas — atuava de forma articulada, produzindo e compartilhando dados para subsidiar decisões políticas e ações repressivas.
Outro ponto central é a demonstração de como a repressão não se limitou à violência física. O controle institucional, a censura indireta e o cerceamento de carreiras acadêmicas foram instrumentos recorrentes, impactando trajetórias profissionais e a produção de conhecimento. Casos de espionagem sobre atividades acadêmicas consideradas “subversivas” e o acompanhamento de entidades sindicais e estudantis reforçam o caráter sistemático da intervenção estatal.
A pesquisa também destacou o papel da Lei de Anistia de 1979 na consolidação da impunidade, ao impedir a responsabilização de agentes do Estado envolvidos em violações de direitos humanos. Esse contexto contribuiu para o apagamento de parte da memória histórica, tornando iniciativas como as comissões da verdade fundamentais para recuperar informações e garantir o direito à memória, à verdade e à justiça.
Ao trazer à tona documentos inéditos e análises detalhadas, o relatório reafirmou a importância de enfrentar o passado autoritário para fortalecer a democracia. Mais do que um resgate histórico, o estudo se colocou como instrumento político e pedagógico, alertando para os riscos da repetição de práticas de vigilância e perseguição e defendendo a preservação das liberdades acadêmicas e dos direitos democráticos no presente.
HOMENAGEM LUIZ LAURINO
A homenagem ao professor Luiz Laurino marcou um dos momentos mais emocionantes do lançamento do relatório da Comissão da Verdade da APROFURG. Lembrado como colaborador desde a criação da comissão, Laurino teve participação ativa nos trabalhos, contribuindo não apenas como docente e pesquisador, mas também como companheiro próximo, cuja presença fortalecia o grupo.
O relato destacou que, em 2018, diante do contexto político adverso e das memórias dolorosas da ditadura que revisitavam sua própria trajetória, o professor optou por se afastar das atividades da comissão. Sua decisão evidenciou o peso humano e emocional envolvido na reconstrução dessa história, especialmente para aqueles que viveram diretamente o período de repressão.
Após seu falecimento, em 2020, a Comissão da Verdade passou a levar seu nome, como forma de reconhecimento e memória. A homenagem reafirma a importância de sua contribuição e simboliza o compromisso coletivo de manter viva a história, honrando aqueles que lutaram e sofreram durante a ditadura, para que essas violações nunca sejam esquecidas nem se repitam.
RELATÓRIO
Para acessar o relatório clique no link https://tinyurl.com/relatoriocvaprofurg

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